(...)
O primeiro contato que tive com Nelson Rodrigues foi através do proibidíssimo "Engraçadinha: Seus Amores e Seus Pecados", a minissérie exibida em 1995 na Globo, que lançou Alessandra Negrini com muito estardalhaço, mas que coroava Claudia Raia como protagonista.
Eu tinha 12 anos e o programa era exibido em um horário muito ingrato: Altas horas da noite.
Horário de criança estar na cama pra acordar cedo pra ir pro colégio...
Através das chamadas, dava pra ver nitidamente que a minissérie era um programa de adulto.
Só que não dava para assistir, só pra imaginar..
E na minha mente fértil, rolava de tudo! Peitos, pintos, bundas, palavrões, sexo sujo, assassinatos, estupros, cuspidas na cara...
Enfim, "Engraçadinha" tinha jeito de ser sacanagem disfarçada de novela e eu entendia perfeitamente porque era exibida tão tarde.
Cheguei a ver uma cena, na casa da namorada do meu pai: O personagem do Caio Junqueira mata o Luis Maçãs para não ser currado. (...) Tenso.
(...)
Um ano depois, veio o quadro "A vida como ela é...", no Fantástico!
Uma loucura... Esse sim, passava em horário plausível de ser assistido.
E era absurdamente maluco...
Sim, eu não estava tão enganado! Tinha sacanagem da boa nesse tal Nelson Rodrigues.
Lá estavam os peitinhos da Maitê Proença numa cena de sexo escancarada, em cima dum tanquinho de lavar... "A dama da lotação"!
Mas havia tantas outras coisas atraentes...
Tinha o patético personagem do Antônio Caloni que se mata por não querer jantar duas vezes (uma vez com a esposa, outra vez com a amante.); o melhor personagem da vida da Malu Mader, uma fulana feiosa que resolve dar em cima do próprio marido pra provocar inveja na vizinha.
E um episódio que me embasbacou... "O delicado"... Caio Junqueira (ele, de novo!) enforcado vestido num lindo vestido de noiva!
Tinha sacanagem, sim! Mas era mais! Era extremamente chocante, engraçado e inteligente...
(...)
Depois, só na faculdade!
Um "Perdoa-me..." aqui, um "Toda Nudez..." ali.
Vi "A Serpente", vi "A falecida"...
Exercícios com "O Beijo...", com "Vestido de noiva".
Mas nada de aprofundar... Ficava no raso... No clichê!
Nelson Rodrigues era um velhote fanfarrão com tendências freudianas!
Apenas.
Não que eu não me interessasse, mas eu estava rodeado por Shakespeare, Beckett, Oscar Wilde, Ionesco, Tchekhov... Não dava pra dar bola pra todo mundo!
(...)
Em 2008, numa temporada do Beckett no Rio, me dei de presente "O Anjo Pornográfico", biografia do Nelson escrita por Ruy Castro.
E segui o conselho de um amigo: Quando, na biografia, Nelson estiver escrevendo ou estreando uma das peças, pára e vai ler o texto...
Achei isso genial! E fiz...
Demorei muito! Muito mesmo... Dei graças a Deus quando cheguei n' "A serpente".
Mas, sinto que saí do raso...
Não sou um expert, mas Nelson não é mais um clichê!
Eu gosto de entender o que faz um clássico ser um clássico. "Vestido de noiva" é um clássico do teatro, assim como "Perdoa-me...", "Toda nudez...", "Sete Gatinhos", "Boca de Ouro".
E hoje, eu entendo a importância dele como dramaturgo.
E está sendo ótimo poder mergulhar cada vez mais.
(...)
É uma satisfação muito grande comemorar o centenário do Nelson Rodrigues apresentando "A Falecida"...
Espero que ele esteja gostando tanto quanto eu...
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| Diego de Leon como Deus, em "A Falecida" |


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